A Falácia da Felicidade no Trabalho

O Santo Graal. O fim último da existência humana. Não haverá uma única pessoa no planeta que responda “não” à pergunta: “gostaria de ser feliz?”. A história da humanidade sempre foi acompanhada pela noção de felicidade. As artes – desde a pintura à música e à literatura (em prosa ou em verso) – e mais recentemente a ciência, todos se debruçaram sobre este estado de alma, ou estado emocional para os mais racionais.

Apesar de fazer parte da nossa história desde sempre, só recentemente as empresas encontraram a felicidade. Um pouco sem se perceber muito bem como, a onda da felicidade foi ganhando adeptos. E um pouco por todo o lado é ver empresas a esforçarem-se por fazer os seus colaboradores pessoas felizes. Desde espaços de trabalho divertidos, ao estilo de parque de diversões, como o Googleplex onde a ligação entre os pisos se faz por escorregas, ou as tradicionais consolas de jogos, mesas de ping-pong ou de matraquilhos, tudo serve para criar ambientes divertidos e, por isso, mais felizes. Outros vão ainda mais longe, como a Inventionland, no que diz respeito à criação de espaços de trabalho divertidos. Basta ver as imagens. Não é preciso sequer descrever ou comentar.

Mas não se pense que é só “lá fora” que a febre da felicidade invadiu as empresas. Existe uma empresa em Portugal, a BC Segurança, que para além dos benefícios e regalias que coloca à disposição dos seus colaboradores, criou um “Departamento da Felicidade”. O objectivo deste departamento é claro: fazer dos colaboradores pessoas felizes.

Não se julgue que esta onda de felicidade é desinteressada. A ideia subjacente ao estímulo da felicidade é simples: pessoas felizes são mais produtivas. Apesar de os estudos sobre esta relação apresentarem resultados inconclusivos (não existe por isso sustentação factual e, portanto, científica para a relação felicidade-produtividade), a verdade é que aliar as palavras “felicidade” e “produtividade” tem um efeito encantatório para o mundo da gestão, qual serpente que se eleva bambuleante de um cesto ao som de uma flauta.

O que é mais irónico, contudo, é que a procura obsessiva da felicidade pode mesmo redundar em… infelicidade.

O “culto corporativo da felicidade” (Meredith Bennett-Smith) sob a forma de pressão para ser feliz, pode ter consequências opostas às desejadas. Um estudo conduzido por investigadores da Michigan State University revelou que trabalhadores que eram instruídos para sorrir constantemente chegavam ao fim do dia de mau humor. A felicidade baseada na demonstração de falsas emoções positivas, é extremamente cansativa, alimentando estados de exaustão e, no limite, situações de burnout. Ou seja, quanto mais se força a felicidade, mais ela nos parece fugir.

A culto da felicidade faz-se também pela desvalorização e até menosprezo e exclusão das emoções negativas: ser feliz e divertido, sim; ser triste e mal humorado, não. Esta ideia não só impede o ser humano de ser um humano, como menospreza e rejeita (erradamente) o poder das emoções negativas. Um estudo conduzido pelo professor Joe Forgas da University of New South Wales concluiu que os “estados de ânimo negativos desencadeiam um pensamento mais atento e cuidadoso, prestando maior atenção ao mundo externo”. Além disso, colaboradores moderadamente mal humorados são melhores na tomada de decisões, menos crédulos e melhores a comunicar ideias.

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